sábado, 2 de março de 2013

Capítulo 17

Capítulo 17


   Found the better part of me And i'll never let it go


Encontrei a melhor parte de mim.E eu nunca vou deixá-la ir




Música do título: Invincible - Hedley







Angel Pov's


   Droga!Eu não acreditava que o Nathan tinha visto as cicatrizes nos meus pulsos.Eu tive todo o cuidado pra ele e nem os outros meninos verem.Nos outros dias eu estava com blusas de mangas compridas.No dia que fomos no pub,eu tava de vestido,mas coloquei pulseiras também,além do mais,aquele dia tava todo mundo bêbado demais pra enxergar alguma coisa.E hoje resolvi mudar um pouco,embora o clima de Londres fosse meio frio.Então coloquei as pulseiras.Eu me sentia muito vitoriosa por ter superado tudo,mas eu queria evitar as perguntas.Foi uma coisa que até hoje nunca falei abertamente pra imprensa.

— Bom,você deve saber que isso são cicatrizes,não é?—falei e ele assentiu.—Então,é isso mesmo que você deve tá pensando.Eu me cortava e duas vezes,tentei suicídio.
   Ele me encarou,surpreso.Acho que ela não tinha imaginado que eu fui tão longe assim.
— Mas por quê?
   Eu não sabia como contar.Não tinha nem ideia por onde começar.Respirei fundo e tentei explicar.
— Bom,pra muitas pessoas a minha vida foi fácil.Mas não foi nem um pouco.Eu sempre me senti diferente.É como se eu não me encaixasse em lugar nenhum.Como se ninguém me entendesse.Eu sempre fui esquisita,estranha e não gostava das mesmas coisas que os outros.Eu tinha certeza que não via as coisas como os outros,sempre achei que tinha alguma coisa errada comigo.Eu me sentia perdida no lugar que eu vivia.Como se eu não pertencesse àquele lugar.Então,eu sempre achei que tinha nascido no lugar errado,ou talvez no planeta errado.E sempre foi assim,desde que eu era criança.—parei de falar um pouco,e o Nathan só me encarava.—Então eu sempre fui meio sozinha.Eu não gostava de sair.Preferia ficar em casa lendo um livro ou ouvindo música.Eu era bem anti social mesmo.Eu tinha poucos amigos,talvez porque eu não confiava em quase ninguém.Mas eu sempre senti orgulho de ser assim.Só que isso não agradava a minha família.Eu fui condenada por eles desde criança.Eu cresci ouvindo críticas,Nath.Ninguém naquela casa me entendia,nem ao menos tentavam.Sabe,eu nunca me dei muito bem com meu pai.Teve uma época que eu cheguei a odiá-lo.Nós brigávamos muito.Porque quando eu não concordava com algo que ele dizia,eu falava na cara dele.Nunca tive medo de dizer o que eu pensava pra ele.Meu pai viveu o tempo todo comigo,mas era como se ele não estivesse ali.Ele nunca sentou pra conversar comigo.Ele nunca me perguntou como eu me sentia,o que eu queria pra minha vida.Ele nunca disse que me amava.A verdade é que todo o tempo dele,ele dedicava ao trabalho.E isso sempre me irritou muito.E ele sempre tinha a mesma desculpa;ele tinha que trabalhar pra me sustentar.E de fato,ele sempre me deu o que eu pedia.Mas tudo que eu mais queria é que ele tivesse prestado mais atenção em mim,no que eu sentia.Eu tentei me aproximar dele diversas vezes,mas nunca deu certo e eu só acabei unindo feridas.Ele nunca me entendeu,nem sequer tentou,e tenho certeza que nunca vai entender.
   Com a minha mãe,eu sempre me dei bem.Ela é tudo pra mim.Mas é outra que nunca me entendeu.Ela sempre esteve concentrada nela,só no que ela sentia.Ela nunca me apoiou em nada.Sempre ridicularizou meus sonhos,e disse que eu não iria conseguir realizá-los.Você sabe o que é isso,Nathan?Ver a tua própria mãe duvidando de você?Dizendo que você é inútil?Que nunca vai servir pra nada?
   Eu sofria muito vendo que ela não acreditava em mim.Eu não tinha ninguém que me apoiasse,até eu conhecer a Maikê.Eu nunca tive o apoio de ninguém da minha família.Até porque eu era a excluída.—Eu tava tentando não chorar,mas não consegui.Lembrar de tudo aquilo,cutucou nas feridas e fez as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.Então o Nathan me abraçou.
— Calma,meu anjo.Eu tô com você agora.
— Obrigada,Nath.
   Me acalmei um pouco e continuei.
— Na escola também não foi muito fácil.Eu não me encaixava no meio dos meus colegas.Então,eu sempre fui a esquisita.Eu até tinha alguns amigos,mas eu não me sentia bem.Claro que os poucos amigos que eu tinha,eram verdadeiros,e eu sabia que era isso que importava.Mas eu cheguei a sofrer um pouco de bullying também.Não foi um bullying pesado,nunca chegaram a me agredir fisicamente.Era tudo psicológico.E tudo porque eu era meio gordinha.Não era muito,mas já serviu pra me zuarem.E eu me sentia diferente por isso.Eu olhava pras outras meninas e me comparava com elas.Eu sempre me achei feia,e nunca gostei de me olhar no espelho.Eu não conseguia encarar o que eu via.Aí os meninos da minha turma,e até algumas meninas,ficavam me chamando de gorda.E eu me sentia muito mal com isso.Eu já me achava feia,e com esses comentários,eu tinha certeza.Então teve uma época que depois que eu comia,eu ia no banheiro vomitar.E quando eu tinha onze anos eu até cheguei a me cortar.Foram poucas vezes,porque a minha viu.Eu dei umas desculpas esfarrapadas,mas ela acreditou.Mas aí eu resolvi parar de me cortar e de vomitar,pra não ter que ficar mentindo pra ela.Porque iria chegar um momento que ela não acreditaria mais em mim.Mas então eu me isolei de todo mundo,porque eu me sentia um lixo.Eu achava que não era boa o bastante.Depois de um tempo,quando eu estava no ensino médio,eu emagreci um pouco,aí ninguém mais falou nada,mas mesmo assim eu me sentia mal.Eu ainda me achava inferior.E o pior de tudo,era que pessoas da minha família que me atormentavam com essas brincadeiras,de que eu era gorda e tal.
    Mas aí eu me formei e fiquei muito tempo trancada em casa.Eu não trabalhava e todo mundo achou esse novo motivo pra me fazer críticas.Eu entrei em depressão e engordei muito.Foi aí que eu comecei a me cortar sempre.Eu tinha acabado de fazer 18 anos quando comecei.Aí eu sempre brigava com meu pai e com a minha mãe,porque eles nunca viam que eu estava mal.Mas muitas vezes,eu escondia os cortes,pra evitar as perguntas ou acusações deles.Então um dia,eu cortei realmente fundo.Na verdade,eu sempre fazia cortes fundos,mas aqueles foram mais.Não cheguei a levar pontos,porque ninguém se deu ao trabalho de olhar direito.Minha mãe viu,mas não fez nada.Meu pai,muito menos.A convivência com eles,e com todo mundo,tava difícil,então eu me cortava mais ainda.Eu nunca me aproximava de ninguém,e não deixava ninguém se aproximar de mim também.A minha mãe sempre me fazia se sentir pior e meu pai nunca falou nada.Provavelmente ele viu as cicatrizes,mas nunca falou uma palavra sequer.Sabe o que é isso,Nathan?Ver que seus pais não se importam com você?Eles nunca  conversaram comigo sobre isso,nunca tentaram entender os motivos que me levaram a fazer isso.Na verdade,nem eu sabia os motivos,mas eu só queria que alguém me entendesse,que ao invés de criticar,me ajudasse.Alguém que eu pudesse contar,desabafar,sei lá.
   E foi no meio disso tudo,que eu conheci a Maikê.Nós nos conhecemos pelo twitter,embora morássemos na mesma cidade.Nós nos demos bem desde o início.Tínhamos muita coisa em comum.Parecíamos até a mesma pessoa.Então ela falou que também se cortava,mas que fazia um tempo que tinha superado.E ela tentou me ajudar sempre.Só que um dia eu tive uma briga bem feia com a minha mãe,e tentei suicídio de novo.E dessa vez foi quase.Foi o corte mais profundo que eu fiz.Por milímetros não cortou uma veia.Aquela vez eu achei que iria morrer mesmo.Como da outra vez,ninguém disse nada.E eu escondi o corte com camisetas de mangas compridas,mesmo no calor.Era verão,mas mesmo assim,usei mangas compridas,e minha mãe nem desconfiou.Pra ver como ela prestou atenção em mim.Depois das nossas brigas,ela sempre fingia que não tinha acontecido nada.Como se tudo que ela me dizia,não tivesse me atingido.
   Só que aí a Maikê me ajudou.Ela sempre esteve do meu lado,me dando forças.Ela pedia pra eu não desistir,que ela estava ali pra me ajudar,que ela nunca iria me abandonar.Ela sempre acreditou em mim.Ela acreditava nos meus sonhos,por mais malucos que fossem.Meu maior sonho era morar aqui em Londres.Outro era conhecer vocês,da The Wanted.E ela me dava forças,ela dizia que eu ia conseguir tudo que eu quisesse,e que ela estaria comigo sempre.Que quando eu realizasse meus sonhos,ela estaria junto comigo.Assim como eu estaria quando os delas se realizassem.
   Um tempo depois,nós tivemos a ideia de montar a banda.Foi meio que sem noção no começo,porque nenhum de nós sabia tocar nenhum instrumento.Nós só tínhamos a vontade de aprender.Porque nós éramos loucos por músicas,e somos até hoje.E a Maikê que cantava bem e escrevia muito também.E eu que gostava de escrever também.Mas aí corremos atrás pra aprender a tocar instrumentos,e o bom foi que todo mundo aprendeu super rápido,o que prova que levávamos jeito pra coisa mesmo.Começamos a fazer sucesso,fazendo covers de bandas de rock,já que era o estilo que todo mundo gostava,menos a Maikê,mas ela acabou gostando também.Depois começamos a compor nossas músicas e colocamos no youtube.E quando vimos,já estávamos fazendo sucesso no Brasil inteiro.Com a correria,eu mudei muito,eu emagreci e parei de me cortar.Comecei a me sentir melhor também.Mas mesmo assim,eu ainda me sinto insegura quando eu me olho no espelho.Eu ainda não consigo me aceitar muito bem,sabe?!Mas posso dizer que superei muitas coisa.Não foi fácil,mas consegui.Eu nunca imaginei que iria chegar onde cheguei.Mas consegui.A música e a Maikê me salvaram.—Terminei de contar e o Nathan me abraçou de novo,mas forte dessa vez.
— Eu sinto muito por isso.—disse ele.—Eu queria muito ter te conhecido aquela época.Pra te dizer que você iria conseguir.Queria ter estado do teu lado.E você é perfeita,meu anjo.Era antes,e é agora.Do jeito que você é.
— Não era o que eu pensava.
— Eu sei,as pessoas são cruéis mesmo.Mas você foi uma guerreira,você conseguiu superar.E se tem alguma coisa que não superou,eu vou te ajudar a superar,pequena.Conta comigo,tá?!
— Obrigada,Nath.
— Sua história de superação é incrível.Nunca imaginei que você tinha sofrido tanto.E eu te admiro ainda mais por isso.
— Ah Nathan,e eu achei que não podia te amar mais do que eu já amo.Você é um fofo.
   Ele sorriu e me abraçou.
— Mas por que você esconde as cicatrizes?
— É porque eu não gosto de explicar quando alguém me pergunta.Eu ainda quero fazer algumas tatuagens pra tapar as cicatrizes,mas ainda não me deu tempo.
— Já sabe o que vai tatuar?
— Queria algumas frases.Algo como ''acredite nos seus sonhos'' e ''nunca desista''.Esse tipo de coisa.
— Que lindo.Faz isso mesmo.
   Ficamos um tempo em silêncio e depois começamos a falar um pouco sobre a vida dele.Até que chegamos à parte dos relacionamentos que tivemos.
— Você teve muitos namorados?—Ele me perguntou.
— Nunca tive namorado.—Falei,envergonhada.
— Nunca?—Perguntou ele,surpreso.
— Não.
— Mas por quê?
— Bom,o primeiro cara que eu gostei,não sentia o mesmo.Me decepcionei e sofri muito por ele.Então eu não quis mais saber disso.Decidi que não iria mais gostar de ninguém de novo.Eu sempre acreditei que eu não nasci pra esse negócio de amor.
— Caramba,esse cara só podia ser um idiota.Você é uma garota incrível.Você é diferente das outras.E você não devia desistir,você ainda vai encontrar alguém que te faça mudar de ideia.
— É o que a Maikê sempre me diz.—Falei,rindo.
— Mas quem era esse babaca que você gostou?
— Hum.....o Luiz Paulo.
— O baixista da tua banda?—Perguntou ele,surpreso e eu tive que rir da cara que ele fez.
— Sim.
— Não acredito.
   Então contei pra ele como tinha sido e como o Luiz entrou na nossa banda.Contei também que tinha ficado com ele algumas vezes,depois de tudo,mas que eu não gostava mais do Luiz há muito tempo.


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